Salário de contribuição, a base de tudo
Salário de contribuição é o valor sobre o qual a pessoa paga o INSS. Ele fica entre o salário mínimo, hoje R$ 1.621,00, e o teto do INSS, hoje R$ 8.475,55.
Quase todos os benefícios do INSS saem desse valor. Aposentadoria, auxílio por incapacidade, salário-maternidade e pensão por morte usam a média dos salários de contribuição.
Quem contribui sobre pouco recebe pouco. Não importa quanto a pessoa ganhou de fato, nem quanto a empresa pagou de INSS sobre a folha.
Como o empregado CLT contribui
O empregado contribui sobre o salário inteiro, até o teto. A empresa desconta o INSS no contracheque e repassa ao governo. Com salário de R$ 5.000, o desconto em 2026 é de R$ 501,51.
A empresa também paga 20% sobre a folha, mas esse dinheiro não entra na conta do benefício do empregado. Ele financia a Previdência de todos. O detalhe está em encargos trabalhistas.
Como o salário de contribuição acompanha o salário, quem ganha R$ 5.000 com carteira tem R$ 5.000 registrados no INSS todo mês. Quem ganha acima do teto tem o teto registrado.
Como o PJ contribui
O PJ é contribuinte individual, a categoria do INSS para quem trabalha por conta própria ou é sócio de empresa. A lei fixa a alíquota dele em 20%.
O que a lei diz
A alíquota de contribuição dos segurados contribuinte individual e facultativo será de vinte por cento sobre o respectivo salário-de-contribuição.
Em português
Quem trabalha por conta própria paga 20% de INSS sobre o valor em que decide ou precisa contribuir.
Quando recebe pró-labore da própria empresa, o sócio paga 11%. A lei permite abater parte dos 20% da contribuição que cabe à empresa, e a empresa desconta o valor do pró-labore e o recolhe.
A base é só o pró-labore, e não o faturamento. Se o sócio tira um salário mínimo, contribui sobre um salário mínimo, mesmo com nota de R$ 10.000 por mês.
No Anexo III do Simples, a regra do fator R obriga um pró-labore de 28% do faturamento. Isso sobe a base um pouco. No Anexo V e no lucro presumido, o pró-labore costuma ficar no mínimo.
A base de cada um, lado a lado
A tabela compara a base do empregado com a do PJ que tem a nota de equilíbrio. É a nota que deixa os dois com o mesmo dinheiro por mês.
| Salário CLT | Base do CLT no INSS | Base do PJ no Anexo III | Base do PJ no Anexo V |
|---|---|---|---|
| R$ 3.000,00 | R$ 3.000,00 | R$ 1.621,00 | R$ 1.621,00 |
| R$ 5.000,00 | R$ 5.000,00 | R$ 1.781,45 | R$ 1.621,00 |
| R$ 10.000,00 | R$ 8.475,55 | R$ 2.941,92 | R$ 1.621,00 |
| R$ 15.000,00 | R$ 8.475,55 | R$ 4.326,43 | R$ 1.621,00 |
| R$ 20.000,00 | R$ 8.475,55 | R$ 5.898,91 | R$ 1.621,00 |
Com o mesmo dinheiro no bolso, o PJ sempre tem uma base de INSS menor que a do empregado. No salário de R$ 5.000, a base do PJ é pouco mais de um terço da do CLT. O dinheiro que ele não paga de INSS hoje vira benefício menor amanhã.
Como o INSS calcula a aposentadoria
Desde a reforma da Previdência de 2019, a conta usa a média de todas as contribuições feitas desde julho de 1994.
O que a lei diz
Até que lei discipline o cálculo dos benefícios do regime próprio de previdência social da União e do Regime Geral de Previdência Social, será utilizada a média aritmética simples dos salários de contribuição e das remunerações adotados como base para contribuições a regime próprio de previdência social e ao Regime Geral de Previdência Social, ou como base para contribuições decorrentes das atividades militares de que tratam os arts. 42 e 142 da Constituição Federal, atualizados monetariamente, correspondentes a 100% (cem por cento) do período contributivo desde a competência julho de 1994 ou desde o início da contribuição, se posterior àquela competência.
Em português
O INSS soma todos os salários de contribuição desde julho de 1994, corrigidos pela inflação, e tira a média simples. Cada mês com base baixa puxa a média para baixo.
O que a lei diz
O valor do benefício de aposentadoria corresponderá a 60% (sessenta por cento) da média aritmética definida na forma prevista no caput e no § 1º, com acréscimo de 2 (dois) pontos percentuais para cada ano de contribuição que exceder o tempo de 20 (vinte) anos de contribuição nos casos (...)
Em português
Na regra geral, a aposentadoria é de 60% da média, mais 2% por ano de contribuição acima de 20 anos. Para as mulheres, os 2% a mais contam a partir de 15 anos.
O que a lei diz
A renda mensal do benefício de prestação continuada que substituir o salário-de-contribuição ou o rendimento do trabalho do segurado não terá valor inferior ao do salário-mínimo, nem superior ao do limite máximo do salário-de-contribuição, ressalvado o disposto no art. 45 desta Lei.
Em português
O benefício nunca fica abaixo do salário mínimo nem acima do teto do INSS.
O efeito num exemplo simples
O exemplo abaixo mostra só o mecanismo. Ele supõe a mesma base durante toda a vida contributiva, sem correção e com o tempo mínimo da regra geral. Não é uma previsão do seu benefício.
Mesma renda, bases diferentes, valores de 2026
- CLT, média de R$ 5.000,00 × 60%
- R$ 3.000,00
- PJ no Anexo III, média de R$ 1.781,45 × 60%
- R$ 1.068,87
- PJ, valor pago pelo piso do salário mínimo
- R$ 1.621,00
- Diferença por mês na aposentadoria
- R$ 1.379,00
O cálculo do PJ fica abaixo do mínimo, e por isso o INSS paga o mínimo. O empregado recebe quase o dobro, com o mesmo dinheiro no bolso durante a vida ativa.
A diferença cresce com o tempo de contribuição. Cada ano a mais acima do mínimo soma 2% da média, e 2% de R$ 5.000 valem bem mais que 2% de R$ 1.781,45.
Quem foi CLT e depois virou PJ
Como a média usa todas as contribuições desde julho de 1994, os anos de carteira assinada continuam contando. Os anos de PJ com base baixa entram na mesma média e puxam o resultado para baixo.
Homem com 30 anos de contribuição, valores de 2026 sem correção
- 30 anos como CLT, média de R$ 5.000,00 × 80%
- R$ 4.000,00
- 20 anos como CLT e 10 como PJ, média de R$ 3.927,15 × 80%
- R$ 3.141,72
- Diferença por mês na aposentadoria
- R$ 858,28
Com 30 anos de contribuição, o homem recebe 60% da média mais 2% por ano acima de 20, ou seja, 80%. Os 10 anos de PJ, com base de R$ 1.781,45, derrubam a média em mais de R$ 1.000.
A pensão por morte também sai da aposentadoria que a pessoa recebia ou teria direito a receber. Por isso uma base baixa reduz também o que a família recebe depois.
Auxílio por incapacidade e salário-maternidade
A base baixa não pesa só na velhice. O auxílio por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença, é de 91% do salário de benefício, que é a média das contribuições.
Para o PJ que contribui sobre o mínimo, o auxílio fica no mínimo. O empregado de R$ 5.000 recebe perto de 91% da própria média, e ainda tem os primeiros 15 dias pagos pela empresa.
No salário-maternidade, a empregada recebe o salário inteiro por 120 dias. A PJ contribuinte individual recebe pelo INSS a média das últimas contribuições, e quem contribui sobre o mínimo recebe o mínimo.
Esses são riscos de curto prazo. Uma doença longa no meio da carreira derruba a renda do PJ de uma vez. A lista dos outros direitos está em o que o PJ perde.
Como o PJ pode proteger a aposentadoria
Ser PJ não condena ninguém a uma aposentadoria mínima. Mas a proteção depende de decisões que o empregado não precisa tomar.
O ponto central é que a proteção do PJ é voluntária. O empregado contribui sobre o salário inteiro sem decidir nada. O PJ precisa escolher contribuir mais, e pagar por isso hoje.
- Avalie com o contador um pró-labore maior. No Simples, cada R$ 1.000 a mais custa R$ 110 de INSS por mês, fora o imposto de renda nas faixas mais altas.
- Guarde todo mês a diferença entre a nota e o que você gastaria sendo CLT, numa aplicação de longo prazo.
- Considere uma previdência privada ou outra aplicação só para a aposentadoria, sem resgate antes do tempo.
- Acompanhe no extrato do INSS, o CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais), se as contribuições do pró-labore estão aparecendo mês a mês.
A conta do quanto pedir de nota para ter espaço para essa reserva está em quanto o PJ precisa faturar. A diferença total entre os dois contratos está em PJ ganha mais?.
O PJ se aposenta com menos que o CLT?
Em geral, sim, quando contribui só sobre o pró-labore mínimo. Com o mesmo dinheiro no bolso, a base de INSS do PJ fica abaixo da base do empregado. No salário de R$ 5.000, é pouco mais de um terço.
O PJ que aumenta o pró-labore ou guarda dinheiro por conta própria pode compensar. Mas precisa fazer isso de propósito, todo mês.
O tempo como PJ conta para a aposentadoria?
Conta, desde que o INSS tenha sido pago sobre o pró-labore. Cada mês com contribuição entra no tempo e na média.
O mês sem pró-labore e sem contribuição não conta. Se a empresa do PJ ficou parada, esse período fica fora do tempo de contribuição.
Vale a pena pagar INSS sobre um pró-labore maior?
Depende da sua idade, do tempo que falta e de quanto você já contribuiu. O INSS tem uma vantagem que a aplicação comum não tem, porque cobre também doença, gravidez e morte.
No Simples, subir o pró-labore de R$ 1.781,45 para R$ 5.000 custa cerca de R$ 354 a mais de INSS por mês. Em troca, a base passa a ser a mesma do empregado de R$ 5.000.
Faça a conta com o contador antes de mudar, porque o pró-labore maior também pode pagar imposto de renda.
